Desenhar é um ofício
Trabalho criativo + processos + vida real
Para ler ouvindo: Vida de Artista | Itamar Assumpção
— Deve ser tão gostoso trabalhar com o que você trabalha. Como você faz para se manter inspirada todos os dias?
— Boleto!
Essa pergunta inocente surgiu em uma conversa casual. Não foi a primeira e talvez não seja a última vez que acontece algo parecido quando alguém descobre que trabalho com ilustração. Eu sei que a minha resposta veio um pouco atravessada pelo cansaço e caos do dia a dia. E até entendo essa ideia romantizada sobre a vida de artista. Sempre vem no combo: dom, talento natural e inspiração repentina.
Esqueça a fagulha criativa
No fim das contas, um trabalho criativo é um trabalho. Você precisa estar “inspirada” até nos dias mais difíceis. Você não pergunta para um engenheiro qual foi a inspiração para dimensionar um sistema estrutural dentro das normas, né? Ou para o padeiro, qual a fagulha criativa para produzir o pãozinho de toda manhã! Existem técnicas, métodos, repetição e responsabilidade envolvidos. Com ilustração não é diferente.
Sim, um trabalho criativo é fazer o que eu gosto, desenvolver um processo autoral e dar vida para projetos incríveis. Mas também existem prazos, briefings confusos, feedbacks em forma de pedrada, dúvidas sobre a própria capacidade criativa, projetos complexos e a vida acontecendo ao redor enquanto o trabalho precisa avançar.
Estratégias para cultivar a inspiração
A fagulha criativa até existe. Pode aparecer no meio do processo ou chegar junto com a ideia inicial. Mas sendo profissional, eu não posso me dar ao luxo de depender dela.
Tratar a criatividade como uma habilidade que pode ser desenvolvida e aperfeiçoada muda a relação com o trabalho. A inspiração deixa de ser ponto de partida e passa a ser consequência. Eu resolvi compartilhar algumas técnicas simples que funcionam para estimular a minha criatividade:
1. Organização de tarefas
Criar em meio ao caos é difícil. Organizar tarefas é entender prioridades, dividir projetos em etapas e conseguir se orientar dentro da própria bagunça. Quando o trabalho está minimamente organizado, a energia criativa rende mais.
2. Repertório
Buscar referências novas e visitar referências antigas ajudam muito na inspiração para os meus projetos. Eu mostrei nesse post, um pouco do meu acervo pessoal. Afinal, em tempos de Pinterest, Instagram e TikTok, buscar inspiração fora das telas amplia o olhar:
3. Anotar as ideias
Manter um acervo próprio de sketches, fotos, anotações e ideias soltas facilita o processo quando a cabeça está vazia. Esse material funciona como ponto de partida e memória visual, evitando a sensação de começar sempre do zero.
4. Descansar a cabeça
Ter hobbies, estar em contato com a natureza, experimentar coisas novas, passear com a minha cachorra e até dormir bem ajuda o cérebro a reorganizar informações e a tomar decisões melhores durante o processo criativo.
5. Aceitar o erro e aprender com o processo
Criar é entrar no processo criativo com tudo, mesmo sabendo que às vezes a gente tropeça no meio do caminho. A autocrítica aparece, questiona, compara, puxa pela insegurança. Nem toda ideia vai funcionar. E tá tudo bem!
A criatividade sem romantização passa por tirar o peso de sentir algo especial todos os dias. Sem a expectativa de que o trabalho criativo venha sempre acompanhado de prazer ou inspiração intensa. O que sustenta o ofício é prática, método e presença.